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PAZ É MATÉRIA DA ESCOLA

EXPERIÊNCIAS BEM-SUCEDIDAS MOSTRAM QUE É POSSÍVEL COMBATER A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS COM O INCENTIVO À CO-RESPONSABILIDADE E AO PROTAGONISMO JUVENIL

A região do Jardim Aeroporto III, na periferia de Mogi das Cruzes, amanheceu chuvosa e fria no último dia 30 de abril – um típico sábado de outono. Pouca gente arriscou sair às ruas, mas a movimentação de jovens, adultos e crianças nas redondezas da Escola Estadual Prof. José Sanches Josende despertava a atenção de quem passasse por perto. Cumprindo fielmente o horário marcado para o início das atividades – 8h30 –, os alunos não estavam ali para participar de uma festa, nem para dar início a um campeonato esportivo ou cumprir uma determinação dos professores.

Voluntariamente, vieram participar de um mutirão para pintar a escola, que havia sido pichada quinze dias antes. “Durante um ano e meio conseguimos manter a conservação do prédio, graças ao esforço dos próprios alunos. O problema é que, com o ingresso de um novo grupo de estudantes, o processo de conscientização recomeça. Aos poucos, os que chegam vão percebendo que aqui não há mais espaço para qualquer tipo de violência e se intimidam”, explica Maria Antonia do Prado, diretora da E. E. Prof. José Sanches Josende. Ela é a protagonista de uma história de sucesso que começou em 2002, quando assumiu o cargo. Na época, eram corriqueiros os casos de ameaça e agressão física, as depredações, os “apagões” de luz criminosos e até tentativas de homicídio. “Os alunos ficavam apavorados, e os professores vinham trabalhar com medo. A violência fazia com que o conceito da escola ficasse prejudicado”, completa.

Assim que assumiu a direção da escola, Maria Antonia iniciou um trabalho de conscientização de toda a comunidade escolar, envolvendo professores, alunos, pais e demais moradores do bairro. A diretora enfatiza que uma nova proposta pedagógica foi elaborada, com base no que ela chama de “os três B”: o Bom (aprendizagem bem-sucedida), o Bem (comportamento ético) e o Belo (condições físicas da escola). Os conceitos foram instrumentalizados no projeto Mobilização pra Valer, que vem rendendo à escola lugar de destaque em prêmios e concursos (foi finalista, no ano passado, do Prêmio Mario Covas). Segundo a diretora, a base do trabalho é a participação – toda ação promovida pela escola começa com o engajamento de alunos e professores: “Nosso objetivo é incentivar o protagonismo juvenil e a co-responsabilidade. Por isso enfatizamos três ações: olhar, ouvir e pertencer. Ao se sentirem donos e responsáveis, os alunos cuidam da escola e também de si mesmos”.

Melhor desempenho escolar

Hoje, não só o prédio da escola está mais bonito e conservado. A pacificação da escola já se reflete no desempenho escolar: o índice de alunos com avaliação satisfatória no Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) passou de 34,1% em 2001 para 69,07% em 2003. “Minhas notas melhoraram bastante; hoje eu tenho mais vontade de vir para a escola”, afirma Paulo Henrique Augusto, 14, aluno da 5a série. “Eu tinha medo de estudar aqui. Hoje eu consigo arrumar tempo para fazer minhas tarefas e ainda participar das ações que organizamos na escola, como as campanhas para arrecadar agasalhos e fraldas”, conta Elenilda Porfírio dos Santos Silva, 17, que cursa o último ano do ensino médio.

Os professores também comemoram: “Foi uma satisfação muito grande poder dividir os resultados desse projeto com os alunos. O trabalho deve acontecer de forma coletiva”, ressalta a professora de história Sandra de Faria Oliveira. No dia do mutirão contra a pichação, ela coordenava, voluntariamente, a pintura da sala ambiente de sua disciplina. No andar de baixo, outras atividades – como curso de biscuit e de bordado com material reciclado – atraíam moradores da região, público que hoje freqüenta assiduamente a escola nos finais de semana.

A integração da escola com a comunidade vai além do bom relacionamento com os moradores. A diretora da José Sanches Josende estabeleceu parcerias que auxiliam nas atividades pedagógicas e sociais desenvolvidas. Exemplo de trabalho conjunto é a participação da Unidade de Saúde da Família do Jardim Aeroporto III, pertencente à Secretaria Municipal da Saúde de Mogi das Cruzes, no dia-a-dia dos alunos e seus familiares. A escola cede espaço para que os agentes de saúde promovam palestras abertas à comunidade. Planejamento familiar e doenças sexualmente transmissíveis são os principais temas discutidos. E o trabalho não é apenas teórico; quando há necessidade, pessoas da comunidade escolar são encaminhadas para tratamento ou cirurgia.

Referência mundial

Por trás das ações da escola, há projetos e programas mais amplos. A E. E. Prof. José Sanches Josende é uma das 5.306 unidades da rede estadual de ensino que fazem parte do programa Escola da Família, promovido pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo em parceria com a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e dezenas de organizações não-governamentais (www.escoladafamilia.sp.gov.br). Implantado em 2003, é considerado o maior programa educacional da Unesco em todo o mundo. A base do trabalho é a abertura das escolas para a comunidade nos finais de semana, oferecendo atividades de cultura e lazer. O representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, conta que durante oito anos foram feitas pesquisas para diagnosticar as causas da violência entre jovens no Brasil: “A juventude está carente de espaços públicos para manifestações culturais e artísticas. E percebemos que as escolas, por sua condição física e geográfica, poderiam cumprir esse papel. Isso principalmente nos finais de semana, quando a violência era ainda mais presente. A decisão foi acertada – o investimento é pequeno e o retorno, enorme”, avalia.

A Unesco participa do programa oferecendo apoio técnico e gerencial. A realização é da Secretaria da Educação, sob a gestão do secretário Gabriel Chalita e a coordenação executiva de Cristina Cordeiro: “A proposta é que as escolas sejam transformadas em espaços de paz e de valorização da diversidade sociocultural. A segurança nas escolas não pode ser tratada como caso de polícia. A convivência pacífica surge da tolerância a essa diversidade, da resolução do conflito, do sentimento de pertencimento. O programa faz com que as pessoas vão para as escolas e descubram suas capacidades, revelem talentos na troca com o outro”. Ela explica que o trabalho da coordenação é promover capacitações para os professores, para que acompanhem as atividades realizadas nos finais de semana. Mas ressalta a importância do engajamento dos diretores: “Nas escolas em que a direção não se envolve, o trabalho não decola. O programa precisa fazer parte da proposta pedagógica, deve estar atrelado às atividades curriculares”.

Para a realização das centenas de atividades que oferece, o Escola da Família conta com a colaboração de quase 40 mil voluntários. Há também a participação de ex-alunos de instituições públicas hoje matriculados em universidades particulares. Eles dedicam seus finais de semana às atividades nas escolas e, em contrapartida, recebem bolsa integral de estudo – os custos são divididos entre o programa e a faculdade. A verba para isso compõe os R$ 180 milhões investidos anualmente pela Secretaria da Educação para a manutenção do Escola da Família. Segundo Cristina Cordeiro, duas novas ações estão sendo desencadeadas ainda neste ano: aumentar de 25 mil para 30 mil o número de universitários bolsistas e estabelecer parcerias com municípios. “O Estado vai oferecer capacitação e gerenciamento informatizado para as escolas que quiserem aderir ao programa encaminhar os universitários bolsistas para atuarem nas escolas municipais”, adianta Cristina. Dos 645 municípios do Estado, trezentos já manifestaram interesse.

Os resultados obtidos pela E. E. Lesbino de Souza Alkimin, em Populina (divisa com Minas Gerais), provam que o Escola da Família conseguiu interferir no cotidiano da cidade. Dos 4.500 habitantes, cerca de novecentos participam das atividades realizadas pela escola todos os finais de semana. “Não há espaços para lazer e entretenimento em nosso município, e a escola é o centro de cultura. Fizemos uma parceria com a comunidade e conseguimos envolver muita gente. Alguns já estão descobrindo a arte como opção de vida, já que o desemprego aqui também é muito alto. A imagem da escola foi valorizada e o índice de evasão caiu 90% de 2003 até hoje”, comemora a diretora Silvia Cristina da Silva Brassaloti.

Reunir forças

Uma das premissas do programa Escola da Família é agregar ações contra a exclusão social e a violência. A Secretaria da Educação desenvolve outras ações na mesma direção, a exemplo do programa Comunidade Presente, realizado desde 1998 pela Diretoria de Projetos Especiais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE). O objetivo específico do trabalho é sensibilizar e instrumentalizar assistentes técnico-pedagógicos, diretores, professores, funcionários, pais e alunos para que a escola se constitua num pólo irradiador de ações pela não-violência. A diferença é que, enquanto as atividades do Escola da Família são realizadas aos sábados e domingos, o Comunidade Presente atua durante a semana.

Chefe do Departamento de Educação de Jovens, Jurema Reis Corrêa Panza, da FDE, explica que os quatro eixos do projeto são cidadania, participação, comunidade e não-violência: “Nosso objetivo é provocar a discussão sobre o papel e os limites da escola diante de manifestações de violência – quando encaminhar o caso ao Conselho Tutelar ou quando agir sozinha, por exemplo. Os diretores e professores recebem orientações sobre como mediar conflitos, como identificar um pedido de ajuda de um aluno. Muitas vezes os professores não conseguem perceber os atos de violência que estão na sua frente”.

Na E. E. Anacondes Alves Ferreira, em Diadema, uma das ações desenvolvidas para aproximar estudantes e educadores foi a criação do grupo de adolescentes. Uma vez por semana, durante duas horas, meninos e meninas reúnem-se para discutir questões comuns à idade, como sexo e futuro profissional. Tudo com o acompanhamento da psicóloga Dirce Maria Silva Banti. Os alunos reconhecem a importância do trabalho e contam que já perceberam mudanças no relacionamento com a família e os amigos: “Estou aprendendo como resolver muitos problemas da minha vida. Hoje eu sei lidar melhor com o meu pai e nossa convivência melhorou muito. Nas férias sinto falta, fico perdida”, desabafa Michaela Maria, 16. “Hoje eu penso de maneira diferente em muitos aspectos. E também perdi a vergonha de falar, de conversar com os outros”, analisa Camila Oliveira Elias, 14. Sua mãe, Elenice Aparecida de Oliveira, concorda: “Minha filha está muito mais atenta, mais estudiosa e mais feliz. E eu também aprendi muito, principalmente que é preciso saber ouvir os filhos”.

A diretora Mércia Aparecida Ferreira reforça que o trabalho de conscientização da violência – promovido pelo programa Comunidade Presente – tem estimulado os alunos a participarem de atividades de representação, como a formação do grêmio estudantil. “Antes precisávamos motivar os alunos o tempo todo para que se engajassem em ações em prol da escola. Hoje eles se organizam sozinhos. A eleição para o grêmio, que ocorreu neste ano, foi um sucesso. Oito chapas participaram. Estou aqui há quatro anos e nunca tinha presenciado uma ação de cidadania tão expressiva.” < Luanda Nera

> Ocorrências dentro e ao redor da escola