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A HORA E A VEZ DAS PESSOAS |
FRANCISCO LONGO IDENTIFICA OS ENFOQUES ATUAIS DA GESTÃO DE RECURSOS
HUMANOS. E DEFENDE A CONVIVÊNCIA, NO EMPREGO PÚBLICO, DO MÉRITO COM A
FLEXIBILIDADE POR PEDRO ANIBAL DRAGO E CRISTINA PENZ
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Francisco Longo é um dos mais respeitados especialistas em gestão de recursos humanos e desenho
organizacional de instituições públicas. É professor e diretor do Instituto de Dirección y Gestión
Pública (IDGP) da Escuela Superior de Administración y Dirección de Empresas (Esade), de Barcelona.
Em 2004, lançou – pela editora espanhola Paidós – o livro Mérito y flexibilidad: la gestión de las personas
en las organizaciones del sector público. Longo esteve em São Paulo em maio, para abrir o
seminário “A gestão de pessoas no setor público”, promovido pelo governo do Estado de São Paulo,
pela Seccional SP da Associação Brasileira de Recursos Humanos e pelo Conselho Nacional dos
Secretários de Administração. Na ocasião, concedeu à sp.gov a seguinte entrevista, na qual identifica
alguns caminhos para o aperfeiçoamento das organizações públicas, crescentemente pressionadas a
aumentar sua eficiência e oferecer melhores resultados.
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> Qual a importância da gestão de pessoas?
Longo. A gestão de pessoas não pode ser vista de
forma isolada dos outros subsistemas de gestão que existem
em qualquer organização. O nexo comum entre todos
eles é a estratégia. Os resultados obtidos dependem em
boa medida do comportamento das pessoas no trabalho.
Se esse comportamento atende de forma adequada aos
objetivos organizacionais, as probabilidades de sucesso
são maiores. Acredito que – tanto no setor privado como
no setor público – chegou a hora das pessoas.
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> Por que chegou a hora das pessoas? Longo. Há um contexto em que atuam conjuntamente diferentes fatores. Alguns deles têm forte relação com a própria evolução do trabalho humano. Nas sociedades contemporâneas tal como as conhecemos, o trabalho humano tinha – até agora – um baixo custo de reposição, um baixo valor agregado – de fato, os valores fundamentais eram outros. Hoje, os processos de produção, especialmente no setor de serviços, passam necessariamente pelas pessoas, por seu comportamento, por sua qualificação. Há um crescimento significativo da contribuiçãoque as pessoas podem dar para que se alcancem resultados.
Na administração pública, os setores majoritários são os que utilizam trabalho qualificado – a educação e a saúde representam uma porcentagem muito alta do emprego público. Isso faz com que a variante “pessoa” esteja cada vez mais presente. Mas existem outros fatores que afetam mais especificamente os sistemas públicos. Podemos resumir dizendo que temos de fazer mais e melhor com menos recursos. Esse é o desafio dos sistemas públicos contemporâneos. A sociedade demanda serviços de mais qualidade e ao mesmo tempo exige que não se subtraiam recursos imprescindíveis da economia produtiva. Isso está convertendo os sistemas públicos e suas organizações em uma espécie de “panela de pressão”. Alguns pensam que é impossível gerir bem em cenários de austeridade. Creio que seja possível fazê-lo de forma criativa e empreendedora, assumindo-se o que poderíamos chamar de gestão ofensiva das crises e substituindo-se um modelo já ultrapassado de administração por um modelo de organização pública adaptado às necessidades sociais. |
> Qual o papel dos gestores de recursos humanos?
Longo. Há um autor norte-americano que emprega
uma interessante imagem esportiva para falar aos
gestores de recursos humanos sobre seu papel: “se
vocês querem dar respostas eficazes para os problemas
das suas organizações, vocês têm de estar na quadra,
jogando com seus colegas; não podem ficar nas
arquibancadas assistindo ao jogo ou muito menos nos
vestiários fazendo o resumo do jogo”. O papel dos especialistas
de RH é arregaçar as mangas e jogar com os
demais dirigentes para que as organizações tenham
sucesso. Isso implica assumir muito claramente os
desafios da racionalidade econômica. Em cenários de
austeridade, precisamos de gestores públicos cientes
dos custos daquilo que fazem.
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> Que novas habilidades são requeridas dos gestores
de RH e dos dirigentes públicos, em termos de gestão
de pessoas?
Longo. Os gestores de RH precisam estar atualizados
a respeito das abordagens e ferramentas mais modernas.
Devem ser bons em gestão por competências, precisam
saber como se gerenciam equipes humanas de
forma mais eficiente, como desenhar e administrar
bons sistemas de informação, bons planos de remuneração,
adaptados aos diferentes níveis. Eis sua missão
como especialistas. Quanto melhores forem nesses
campos, melhor será sua contribuição.
O mais importante, porém, é que compreendam que
cabe a eles fortalecer a capacidade de toda a diretoria
para dirigir equipes humanas. O papel dos especialistas
em RH não é gerir diretamente as pessoas, mas facilitar
– para os outros – essa tarefa. Sendo assim, precisam
ter a visão do cliente interno – os dirigentes. Gosto muito
da resposta que Bill Hewlett, um dos fundadores da
multinacional HP, deu quando lhe perguntaram por que
criara o Departamento de Recursos Humanos: “Para
melhorar a qualidade da direção”.
Isso nos leva ao papel dos executivos, dos dirigentes.
O grande desafio dos executivos é perceber que, já que
eles têm de obter resultados através de pessoas, gerilas
não apenas integra suas tarefas, é a sua tarefa mais
importante. Ao receberem seus salários, seus bônus,
estão sendo remunerados por seu comportamento
como gestores eficazes de pessoas.
Voltando às novas tendências. Acredito que existe um
denominador comum entre elas. Trata-se de encontrar
fórmulas eficazes para estimular a qualificação, por um
lado, e o compromisso das pessoas, por outro.
Com relação à qualificação, o mais destacado dos
enfoques recentes é o de gestão por competências. É
importante perceber que o sucesso no trabalho não
depende só do domínio de especialidades técnicas, mas
de uma série de qualidades relacionadas com o equilíbrio
emocional e o autoconhecimento, com a capacidade de relacionar-se com outras pessoas, de lidar com
emoções, de influenciar através da liderança. São
aspectos muito importantes, nem sempre levados em
conta e estimulados pelos processos de gestão mais
costumeiros.
Em termos de desenvolvimento do compromisso,
poderíamos listar diferentes tipos de instrumentos. Há a
crescente transferência do poder de decisão às pessoas,
o empowerment, para que assumam mais responsabilidade
e, ao mesmo tempo, tenham mais iniciativa e
sejam mais criativas. Há o enfoque da gestão de desempenho,
que alinha, dentre os objetivos da empresa, o
conceito de desempenho das pessoas, articulando
novos modos de relacionamento entre chefes e colaboradores.
Há, ainda, orientações para incrementar as
oportunidades de desenvolvimento das pessoas dentro
das organizações, abrindo diferentes itinerários de
evolução profissional que se possam adotar em função
de preferências e capacidades. |
> É possível para o gestor público abrir-se a esses novos
enfoques?
Longo. Os gestores públicos enfrentam, na gestão de
pessoas, restrições maiores, derivadas das especificidades
do setor público. Porém, cabem aqui algumas
observações. A primeira é que, evidentemente, algumas
das inflexibilidades deveriam ser eliminadas, ou pelo
menos reduzidas. Acredito que dispomos de marcos, de
estruturas, de processos desnecessariamente rígidos,
mantidos por tradição cultural, e que já não respondem
a nenhuma necessidade. Por exemplo, contamos com
definições de cargos pouco versáteis, pouco polivalentes.
Temos regimes de jornada de trabalho e de organização
do tempo excessivamente rígidos; barreiras que
não permitem a mobilidade.
Acredito que é possível inovar e melhorar significativamente
as práticas de gestão de pessoas. O gestor
público obtém legitimidade para reclamar da rigidez
quando tenta inovar e não consegue, mas não quando
repete as rotinas que herdou de seus antepassados,
sem nunca pensar na menor inovação. Por isso, a meu
ver, deve-se, sim, reconhecer a rigidez – para poder
superá-la –, e não utilizar a rigidez como desculpa para
a má gestão. |
> A gestão de RH deve ser aperfeiçoada da perspectiva
dos chefes ou a partir das pessoas?
Longo. Eu diria que de nenhum dos dois. Mas, sim, a
partir dos cidadãos, porque é da perspectiva da realização
dos propósitos das organizações públicas que a
gestão de pessoas deve ser olhada. Uma organização
pública não pode considerar que tem a melhor gestão de
RH possível quando seus funcionários estão satisfeitos,
se os cidadãos não estiverem. Isso é muito importante,
pois implica que as organizações públicas busquem
estratégias muito bem formuladas e coerentes com os
programas de governo. É em função disso que a gestão
de pessoas vai acontecer.
Mas cabe dizer aqui que a melhor estratégia não é
capaz de substituir a direção. Um dos problemas que o
gestor público enfrenta – e que o diferencia do executivo
do setor privado – é o que eu chamo de “dilema da
estratégia”. Onde fica a estratégia? Está no programa
eleitoral, depois convertido em programa de governo.
Mas o que acontece quando um projeto, aparentemente
prioritário, não recebe verbas do orçamento, ou quando,
em função de uma campanha pública, a prioridade
muda? Às vezes as estratégias públicas não estão tão
claras. O gestor público deve saber se orientar nessa
escuridão. Ele não pode aguardar que as estratégias
caiam do céu – e com clareza – para então se mexer.
Essa não é a forma correta de exercer a gerência pública.
Repito: a gestão pública não é tarefa fácil. A menos
que se queira manter uma visão burocrática; nesse caso,
basta restringir-se às normas e não correr riscos. |
> Como convivem mérito e flexibilidade numa boa gestão
de pessoas?
Longo. A flexibilidade tem de ser conquistada, mas
não ao preço de destruir garantias próprias dos sistemas
públicos, necessárias para que estes mantenham
sua função. O mérito é aquela dimensão do emprego
público que pressupõe arranjos que assegurem o profissionalismo
das pessoas.
Isso exige determinado grau de independência das
pessoas em relação ao poder político, no que se refere a
nomeação e remoção. Exige preservar a administração
de um excesso de politização, de arbitrariedade, de
despotismo, de clientelismo. Hoje sabemos que os paísesque ordenam seu emprego público pelos princípios do
mérito criam, também, ambientes favoráveis ao bom funcionamento
dos mercados e ao desenvolvimento econômico.
Há pesquisas recentes que fazem uma clara correlação
entre a existência de burocracias profissionais
baseadas no mérito e um bom funcionamento das
transações no mercado.
Defendo de forma muito contundente a necessidade
de se alinharem sistemas meritocráticos e práticas
flexíveis. É uma resposta à visão da evolução do
emprego público, por fases, segundo a qual primeiro se
deveriam fortalecer sistemas meritocráticos, burocracias
weberianas, e só então desenvolver sistemas
flexíveis. Acredito que, nos países em desenvolvimento,
em que ainda se observam claramente déficits nos sistemas
meritocráticos, é preciso superar as deficiências
e ao mesmo tempo investir em flexibilidade, porque as
duas dimensões retroalimentam-se. Melhorias em termos
de flexibilidade reforçam os arranjos do sistema de
mérito e vice-versa. |
> O objetivo seria fortalecer uma administração mais
profissional...
Longo. Uma administração profissional não é simplesmente
uma política de governo – é a identidade de
uma democracia sólida. Não há democracias avançadas
sem administrações profissionais. Posso considerar a
democracia como um sistema no qual há eleições a
cada quatro anos; mas se quero aprofundar-me no conceito
de democracia, preciso falar do Estado de direito.
Uma das características substanciais do Estado de
direito é uma administração profissional, que apresenta
uma dimensão de estabilidade e leis próprias. A administração
não é o prédio do governo da hora. Também
não deve ser o cenário para que funcionários refugiemse
por trás de privilégios. É aí que entra a flexibilidade.
Nossas sociedades não podem manter burocracias
weberianas rígidas, orientadas estritamente pelas normas
e não pelos resultados, incapazes de prestar contas,
e evidentemente também não podem migrar para a
destruição dos sistemas de garantia do mérito, porque o
dano então seria ainda maior. |
> O senhor mencionou a prestação de contas. Qual o
papel do controle social sobre a gestão?
Longo. Os governos têm pendências a resolver em
matéria de transparência. Qualquer avanço nesse sentido
parece-me extremamente positivo. Além disso, devemos
ter servidores públicos acostumados à transparência,
acostumados a prestar contas dos seus atos. Isso
faz parte de uma mudança cultural. Mas, a respeito
disso, gostaria de dizer algo que vai contra a corrente de
certas idéias sobre participação social, especialmente
na América Latina.
Melhorar a gestão pública é tarefa dos governos. Se
os governos não o fazem, igualmente não o fará a
sociedade civil. Não podemos utilizar o controle social
como mecanismo para eximir os governos de suas
responsabilidades. Em países castigados pelo mau governo,
pela corrupção, pela captura do Estado, existe
um estado de ânimo que estimula um certo tipo de pensamento: “com esses políticos, com esses mecanismos,
com essas classes políticas não há nada a fazer; temos
de criar os mecanismos de controle social, de pressão”.
Defendo que, apesar de tudo, a solução é continuar
apostando em melhores governos.
O que eu quero dizer é que o contrário de uma má
representação política é uma boa representação política,
e não a participação social. As democracias modernas
são democracias representativas. Os mecanismos
de transparência, de prestação de contas e de controle
social são extremamente valiosos e importantes, mas
não substituem os mecanismos básicos.
No fundo, precisamos de bons representantes, de
elites políticas de qualidade, de partidos políticos
capazes de orientar as vocações para os governos.
Temos de nos esforçar para construir isso, e não para
substituir. < Tradução de Vivian Celia Arango |
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