Volta para 1ª página      Fale conosco                                                                                       SP.GOV 06
. entrevista > Michael Barzelay

GESTÃO PÚBLICA NA PRÁTICA

NOVA GESTÃO PÚBLICA, ADMINISTRAÇÃO INTELIGENTE, INOVAÇÃO E PRÁTICAS DE GESTÃO SÃO TEMAS ABORDADOS POR MICHAEL BARZELAY
POR CRISTINA PENZ

Michael Barzelay é doutor em Ciência Política pela Universidade de Yale (EUA). Foi professor de Políticas Públicas da John F. Kennedy School of Government, da Universidade de Harvard. Em 1995, ingressou na London School of Economics and Political Science, onde é atualmente professor de Gestão Pública. Atua como consultor junto a diversas organizações, como o BID e o Banco Mundial. Assumiu em 2005 o cargo de co-editor da prestigiosa revista acadêmica Governance. Dentre suas obras sobre políticas públicas e gestão, destacam-se: The Politicized Market Economy: Alcohol in Brazil's Energy Strategy (University of California Press, 1986), Preparing for the Future: Strategic Planning in the U.S. Air Force (Brookings Institution, 2003), The New Public Management: Improving Research and Policy Dialogue (University of California Press, 2001), Breaking Through Bureaucracy: a New Vision for Managing in Government (University of California Press, 1992).

Barzelay esteve em São Paulo em julho de 2005, quando ministrou curso – promovido pelo governo do Estado e apoiado pelo British Council – sobre a gestão de inovação no setor público com base no estudo de práticas. Dentre os casos estudados, esteve o “Brasil em Ação”, programa de gestão de projetos prioritários implementado durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso.

Esta entrevista, iniciada informalmente durante a realização do curso, foi concluída por meio de correio eletrônico.

> Qual a importância de melhorar a gestão e como se pode inovar no setor público? Estas duas questões foram propostas, na primeira edição de sp.gov, em junho de 2004, ao governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. É interessante recolocá-las ao senhor, e assim estabelecer um diálogo entre o governante e o pesquisador.

Barzelay . A importância de se melhorar a gestão pública deve ser compreendida à luz de diversos fatos evidentes a respeito dos sistemas políticos contemporâneos. Primeiro, os cidadãos ambicionam viver sob certas condições sociais, e essas não surgem espontaneamente da ação privada, o que significa que, potencialmente, a ação pública cria valor. Segundo, a ação pública realiza-se sob pressão fiscal e através do exercício de instrumentos do Direito e do poder público, o que significa que a criação de valor público depende tanto dos benefícios da ação como do modo de exercê-la. A gestão pública afeta ambos os aspectos – os benefícios e os custos da ação pública. Portanto, o modo como são desempenhadas as diversas funções da gestão pública tem relevância para o bem-estar dos cidadãos. Terceiro, os objetivos e as circunstâncias de atuação das inúmeras organizações, programas e projetos públicos evoluem constantemente, em função do aprendizado organizacional, dos realinhamentos políticos, dos desenvolvimentos tecnológicos autônomos e das alterações no contexto interno de governo. Nesta linha de argumentação, o papel dos gestores públicos e dos representantes da cidadania tem de incluir um alto grau de responsabilidade em relação à gestão da inovação em organizações, programas e projetos públicos.

Atribuir essa responsabilidade não ajuda a desempenhá-la. Então, a questão a respeito de como inovar no setor público é primordial. Infelizmente, a resposta não é tão evidente. Ela depende das convicções sobre valores e doutrinas da ação pública, depende do que se aprendeu em decorrência da experiência direta. Aceitando essa realidade a respeito da gestão pública (ou mesmo privada), a questão deveria ser: o que podem oferecer os estudiosos? A meu ver, os pesquisadores podem sistematizar o tema e as práticas de inovação, e oferecer aos gestores um bom retrato disso. Podemos também contestar toda uma série de crenças duvidosas. Por exemplo, podemos contestar a crença em que, para inovar, basta que as autoridades políticas expressem claramente uma visão. Ou contestar a crença em que copiar “boas práticas” consagradas é um caminho seguro para a inovação efetiva. Ou ainda desafiar a crença em que rearranjos estruturais da moda são suficientes para a inovação.

No entanto, suprimir crenças duvidosas sobre como se promove a inovação e fornecer uma compreensão da lógica de práticas na gestão pública somente facilitam a busca de respostas a este desafio. Nenhum estudo ou curso poderia produzir um comprometimento apaixonado com os objetivos da mudança, nem explicaria adequadamente como é possível influenciar o pensamento e a ação das pessoas com as quais interagimos. E o comprometimento apaixonado e uma grande habilidade nas relações interpessoais são fatores essenciais para inovar na gestão pública.

> Segundo o senhor afirma, a Nova Gestão Pública busca as melhores respostas para estruturar, gerir e controlar os sistemas burocráticos públicos. No campo acadêmico, tem sido intenso o debate em torno do tema, com base na análise da gestão pública em países como Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e outros. Que avanços o senhor destacaria nas práticas de gestão?

Barzelay . O principal avanço é o reconhecimento de que o gerenciamento é um tema importante para todos aqueles que tenham um papel a desempenhar no sistema governamental. Outro avanço é o reconhecimento de que a gestão pública abrange bem mais do que mudar estruturas e sistemas; abrange mudar as práticas. E práticas são padrões de ação, cujo desempenho depende dos hábitos, das habilidades e das convicções das pessoas diretamente envolvidas. Esforços formais, estruturados, de reforma obedecem a uma lógica política e organizacional, mas não necessariamente à lógica dos atores. Gestores públicos devem compensar essa carência que há nos esforços formais de reforma – devem dar exemplos pessoais e identificar estratégias para estimular as pessoas. Outra lição importante é que mudanças revolucionárias pontuais são menos significativas que o desenvolvimento evolucionário entusiasmado.

Uma lição final que merece ser mencionada é que teorias da prática administrativa ou gerencial precisam ser implementadas com muita criatividade, levando-se em consideração as especificidades institucionais inerentes à ação pública. Na minha opinião, exemplo perfeito disso é o caso “Brasil em Ação”. Neste, os dirigentes usaram muita criatividade para ajustar a prática genérica de gestão de projetos a um contexto institucional altamente complexo, que caracteriza o sistema de instituições públicas na federação brasileira. A meu ver, houve impressionante espírito inovador [sobre o caso, ler artigo do autor, em parceria com Evgenia Shvets, “Improvisando as práticas de planejamento estratégico centrado em projetos e sua implementação: o caso do Brasil em Ação”, RAP – Revista de Administração Pública , 3, 2005].

> O senhor ministrou curso de verão, na Espanha, sobre administração inteligente, abordando a produtividade, a transparência e a gestão da mudança. O que define a administração inteligente?

Barzelay . A administração inteligente compreende os problemas e os soluciona por meio de práticas exercidas de forma competente – o senso comum e as teorias sobre a importância das rotinas organizacionais relacionam-se com essa dimensão do conceito de administração inteligente.

A administração inteligente reconhece os efeitos não-desejados das práticas que emprega, diagnostica suas causas, cria meios factíveis de minimizar os efeitos não-desejados e domina a execução das práticas revisadas. A doutrina japonesa de melhoria contínua é pertinente, a esse respeito.

A administração inteligente antevê que, no futuro, os objetivos políticos e as circunstâncias de implementação das ações públicas serão diferentes daqueles do presente – e se prepara para esse futuro. A administração inteligente estabelece um equilíbrio entre comprometimento com diretrizes estratégicas e ceticismo em relação às justificativas para esse comprometimento e às decisões que supostamente deveriam ser tomadas para perseguir de modo eficaz a direção escolhida. Desenvolvo essas duas dimensões do conceito de uma administração inteligente no livro Preparing for the Future: Strategic Planning in the U.S. Air Force [Brookings Institution Press, 2003], escrito em parceria com o professor Colin Campbell, atualmente na Universidade de British Columbia, em Vancouver, Canadá.

Dê sua opinião sobre a entrevista. Opinião
 
Página Anterior Próxima Página