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Depois de cruzar várias vezes as plataformas da estação Paraíso do Metrô, a dona de casa Laudicéia Nascimento Lopes, de 35 anos, reservou uma manhã para conhecer um serviço – oferecido aos usuários do transporte – que ela ainda não tinha utilizado. Foi assim que chegou pela primeira vez à biblioteca instalada pelo projeto Embarque na Leitura, promovido pela Companhia do Metropolitano de São Paulo em parceria com o Instituto Brasil Leitor. “Estava curiosa para conhecer esse sistema de empréstimo de livros. É muito interessante, é rápido, é fácil. Para quem vive correndo, não tem tempo para nada, é uma ajuda e tanto”, avalia.
Fã de literatura e de história brasileira, Laudicéia Lopes finalmente conseguiu a obra que procurava: uma biografia detalhada do ex-presidente Juscelino Kubitschek. “Eu já havia tentado localizar esse livro na biblioteca municipal perto da minha casa, mas não achei. Lá, fui informada de que a última compra de exemplares ocorreu em 2002. Aqui, eu fiquei surpresa. Descobri que o acervo já tem até os últimos lançamentos”, conta a dona de casa, que mora em São Miguel Paulista.
O depoimento de Laudicéia retrata a satisfação dos quase 9 mil cadastrados na primeira biblioteca instalada em estações de Metrô pelo Embarque na Leitura, e inaugurada em setembro de 2004. A receptividade dos usuários do Metrô foi tamanha que, um ano depois, entrou em funcionamento uma segunda biblioteca, nos mesmos moldes, na estação Tatuapé. Uma solução simples, que requer pouco investimento e infra-estrutura mínima, mas que vem facilitando o acesso ao livro – daqueles que já têm o hábito de ler – e incentivando o hábito da leitura e do empréstimo de livros por quem nunca tinha nem mesmo visitado uma biblioteca.
O modelo escolhido opera nos moldes de qualquer biblioteca (ou locadora de vídeo), em que o cliente escolhe o título, retira o livro em empréstimo e o leva para ler por um período de dez dias. A devolução é simples e rápida e pode ser feita mesmo que a biblioteca esteja fechada, fora do horário de funcionamento, por meio de caixa coletora – localizada em uma das paredes laterais da biblioteca –, para receber os exemplares devolvidos. O acervo, o sistema de cadastramento de usuários, o gerenciamento dos empréstimos e a equipe de bibliotecários e auxiliares foram disponibilizados pelo Instituto Brasil Leitor, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) reconhecida pela excelência de seus programas de incentivo à leitura.
Segundo Flávia Cutolo, chefe do departamento de marketing e comunicação do Metrô, a implantação das bibliotecas vinha sendo estudada há alguns anos, mas a idéia foi reforçada após experiências recentes e bem-sucedidas havidas nos metrôs do México e do Chile. No entanto, para operar uma iniciativa tão inovadora como essa, é necessário contar com grande aporte de recursos humanos e técnicos ou, então, há o risco de inviabilizar o projeto. “Nós não somos agentes culturais, não é essa a missão do Metrô. Nós precisamos, sim, abrir espaços para manifestações, incentivar, facilitar. Mas não temos condições de, sozinhos, gerenciar bibliotecas. Isso seria até mesmo um desvio de nossas obrigações. Daí a importância da parceria com o Brasil Leitor”, justifica.
William Nacked, presidente do Instituto Brasil Leitor, conta que o convênio com o Metrô, para implantação do projeto, trouxe um desafio estimulante para a entidade. Segundo ele, os nove meses de reuniões até que o programa fosse colocado em prática representaram um período de grande aprendizado: “Tivemos que estudar muito para essa experiência, principalmente sobre acessibilidade, infra-estrutura, que são as especialidades do Metrô. Queríamos fazer com que as pessoas se maravilhassem com as vitrines, que fossem atraídas. Tudo isso de forma ágil, rápida”.
O acervo inicial da primeira biblioteca do projeto Embarque na Leitura, instalada na estação Paraíso, contava com mais de 3 mil volumes. Hoje, mais de 4 mil exemplares estão à disposição dos usuários cadastrados. Há também um acervo em braille, um dos grandes diferenciais da iniciativa. Dados computados, relativos a um ano de atividades, mostram que 8.683 usuários foram cadastrados e 37.275 empréstimos foram feitos.
Pioneirismo
Além do pioneirismo de instalar as primeiras bibliotecas em estações de metrô no Brasil, o projeto adota um modelo operacional inovador: não oferece salas de leitura, a fim de induzir o usuário a levar os livros para casa, ampliando, assim, o alcance de suas ações. Os usuários podem também conhecer o acervo de títulos na Internet, em www.metro.sp.gov.br/servicos/biblioteca/embarque.shtml, ou por meio de listagens disponíveis nas próprias bibliotecas. O atendimento nos balcões é rápido, graças ao sistema informatizado de controle.
Mércia Muniz de Souza, 18 anos, é auxiliar de biblioteca na estação Paraíso. Funcionária do Instituto Brasil Leitor, ela acompanhou todo o processo de implantação desta primeira unidade e há um ano trabalha diretamente no atendimento ao cidadão. “Confesso que não acreditava que as pessoas fossem parar para procurar um livro, justamente na hora em que estão com pressa, sempre correndo de um lado para o outro. Mas eu me surpreendi muito. O movimento tem aumentado, eu chego a atender mais de duzentas pessoas por dia”, relata. De acordo com Mércia, muitas dessas pessoas que procuram o Embarque na Leitura comentam que sempre tiveram o hábito de ler, mas que nunca tinham tido acesso tão fácil a uma biblioteca.
O acervo das duas bibliotecas implantadas pelo Embarque na Leitura é mantido em excelente estado de conservação e constantemente atualizado. Os leitores confirmam: “Freqüento muito a biblioteca da universidade onde estudo, mas nem sempre encontro o que preciso. Eu vi que os livros disponíveis aqui no Metrô são bem cuidados, e há lançamentos também”, conta Maria Rita do Valle, 22 anos, estudante de ciências sociais. “Sou apaixonado por leitura e considero esse sistema perfeito. Não tenho tempo de visitar a biblioteca da faculdade, sempre lamentei por isso. Agora fico mais tranqüilo, posso procurar meus livros na ida ou na volta do trabalho”, comemora Richard Pereira da Silva, 26 anos, estudante de história e operador de telemarketing.
A satisfação dos leitores reforça a credibilidade que o Metrô de São Paulo tem junto aos usuários. Reconhecido internacionalmente pela eficiência, segurança e limpeza, o sistema de transporte mantido pela Companhia do Metropolitano ganhou a confiança dos cidadãos. E esses aspectos também foram incorporados ao projeto Embarque na Leitura. “O bem que disponibilizamos para a população tem um valor muito alto. Por isso instalamos a biblioteca no chamado 'espaço pago', ou seja, depois da catraca. Com isso, o cidadão acaba transferindo para o projeto os valores que já confere ao Metrô”, explica William Nacked, do Instituto Brasil Leitor. Prova disso está em uma estatística bastante representativa: o volume de perdas de livros e danos em exemplares é considerado insignificante – menos de 0,4% do total de empréstimos efetuados.
A parte mais difícil
O sucesso alcançado pelas duas primeiras bibliotecas do Embarque na Leitura deve-se não apenas à bem-sucedida parceria entre a Companhia do Metropolitano de São Paulo e o Instituto Brasil Leitor. O projeto foi viabilizado graças ao patrocínio das empresas Usiminas, Cosipa, Rio Negro e Dufer. Flávia Cutolo lembra aquela que foi a parte mais difícil do trabalho: “Foi preciso um esforço grande para mostrar aos empresários que nós não temos recursos sobrando, e que precisávamos de apoio financeiro. Esse processo durou quase dois anos”.
Segundo ela, o Metrô não fez nenhum investimento em dinheiro no projeto. As despesas com infra-estrutura e recursos humanos são todas arcadas pelos patrocinadores. “A Cosipa realmente abraçou a causa e, satisfeita, renovou o contrato e passou a apoiar também a biblioteca da estação Tatuapé. E ainda conseguimos trazer outras empresas do grupo Usiminas”, completa.
William Nacked conta que a iniciativa vem atraindo o interesse de outras cidades brasileiras, como Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Em São Paulo , as perspectivas para 2006 são de manutenção e ampliação do projeto. Ele explica que o convênio inicial com o Metrô prevê a instalação de dez bibliotecas. E revela: “Em dezembro já conseguimos patrocínio para a terceira unidade do Embarque na Leitura, agora na estação Luz. A empresa apoiadora será a Eletropaulo”. |